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O bom gerente está de volta

Contrariando todas as expectativas, Lula venceu a queda de braço com a burguesia que o queria banido da política nacional. Depois da decisão de ontem no STF, Lula está - agora em definitivo - elegível e, portanto, de volta ao jogo.

Foto do Lula, por Ricardo Stuckert

Lula, por Ricardo Stuckert

Para espanto de toda militância e alegria geral da elite raivosa, Lula aceitou jogar o jogo dentro das regras. Aceitou o golpe contra Dilma, aceitou sua condenação e ficou preso por quase dois anos. Mesmo assim venceu. Lula sabe o tamanho que tem, teve coragem, mas o que ele teve mesmo foi sorte, muita, muita sorte. Não fosse a ação de Valter Delgatti, o "hacker de Araraquara" com Glenn Greenwald que revelou ao Brasil as mensagens entre o ministério público e ex-juiz Sergio Moro, somada a pesquisa do jornalista Luis Nassif que descobriu a manobra bilionária para a construção da "Fundação Lava-Jato" e o desastre do governo Bolsonaro, antes e durante a pandemia, Lula estaria preso até hoje. Olhando para trás, ninguém jamais pensou que aquela turminha que pedia "intervenção militar já" chegaria ao palácio do planalto, mas foram eles que colheram os frutos do golpe. A presidência estava programada para cair no colo do PSDB, mas "deu ruim" e caiu nos braços do ex-capitão. Agora sem saída, desMorolizada e com uma crise social tremenda, a burguesia aceita a volta de Lula.

Lula conhece bem o jogo. Logo após a decisão do ministro do STF Edson Fachin, o ex-presidente que antes vestia vermelho para dar entrevistas, lançou mão de um modelito mais ao gosto dos patrões. Blazer escuro e camisa azul clara. Seu discurso que antes era de mobilização, assumiu ares mais moderados e foi até elogiado por tucanos assumidos como a jornalista Miriam Leitão como um discurso de "estadista". Gilberto Kassab, o rei do centrão, já fala em "efeito bola de neve". Lula sabe quando é hora de animar a plateia e quando é hora de falar à burguesia. Lula sabe que sua rejeição ainda é alta, mas sabe também que a polarização com Bolsonaro praticamente inviabiliza uma "terceira via". Para vencer, Lula precisa apenas ter uma rejeição menor que a do ex-capitão. O que no momento não é uma tarefa muito difícil para ninguém, muito menos para ele que fez o melhor governo da história do país. Talvez por isso, o governador de São Paulo, João Doria, que até ontem trabalhava para viabilizar sua candidatura como uma opção da "centro-esquerda", tenha dado declarações de que pode concorrer apenas a reeleição estadual. Embora a certeza de um terceiro mandato de Lula signifique um enorme alívio para o povo brasileiro depois do desastre estrondoso de Temer, Bolsonaro, Guedes e cia, dificilmente ele significará um avanço substancial para a classe trabalhadora. Isso porque a burguesia deve dar a Lula uma coleira ainda mais curta do que a que ele recebeu em 2002.

Se quisesse Lula poderia liderar um movimento de ruptura com a burguesia nacional e imperialista que o meteram na cadeia. Ele poderia liderar uma transformação profunda da sociedade brasileira, mas se fizesse isso, Lula não seria Lula, ou melhor, se o estado burguês permitisse transformações profundas dentro de suas regras, ele não seria um estado burguês. Todos vimos como as instituições políticas, o poder judiciário e militares funcionam a serviço dos interesses da burguesia. Quando a ordem era prender, prendeu-se. Agora, a ordem é para soltar, então solta-se. Os mesmos juízes que negaram todos os recursos a Lula, são os mesmo que agora cancelam todos os processos contra ele. Os militares que avalizaram o golpe e a sua prisão, agora se rebelam contra o "uso das forças armadas para projetos políticos".

A vitória de ex-presidente portanto pode sim ser considerada um passo importante para derrota dos sonhos autoritários de Jair Bolsonaro, mas é, como em outras vezes na história do Brasil, uma saída negociada e, portanto, tutelada sem correções verdadeiras e duradouras. Nesses casos, as decisões são tomadas no andar de cima, sem a participação popular, muda-se a cor da fachada, aceita-se uma reforma ou outra, mas no principal nada muda. Foi assim na redemocratização com a lei da anistia, a eleição indireta e a constituição de 1988. Portanto a volta de Lula não pode ser considerada uma vitória da esquerda. Não foi um movimento popular organizado que pressionou as instituições. Foi o golpe que deu errado e na prática foi a burguesia que abriu a cela. Lula sabe, portanto, a quem ele deve sua liberdade e seu possível retorno à presidência. Por isso não há motivos para acreditar que dessa vez, mesmo tendo passado por tudo que passou, ele faça um governo que vá além de colocar a casa em ordem sem atrapalhar os negócios da burguesia. O bom gerente está de volta.

Para quem se julga de esquerda e já se cansou desse jogo é aconselhável olhar além da ilusão de humanizar ou democratizar o capitalismo. É preciso buscar uma alternativa política com base na experiência histórica, que lute por soluções mais fundamentais e duradouras para a classe trabalhadora. Sem isso não sairemos do lugar nunca.

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