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Há semelhanças entre o nazismo e o comunismo?

A polêmica levantada sobre a legalização ou não de um partido nazista no Brasil fez reascender o debate sobre as supostas semelhanças entre comunismo e o nazismo. Segundo a argumentação de alguns, se o nazismo é proibido, o comunismo também deveria ser. Afinal concluem, Hitler e Stálin foram dois ditadores sanguinários.


É verdade que eles foram ditadores e é verdade que eles foram sanguinários, mas isso não é suficiente para igualar o comunismo ao nazismo. Primeiro porque existem inúmeros ditadores sanguinários na história, cada um com uma ideologia diferente, sendo mais recorrente a aparição de ditadores defensores do capitalismo. Portanto ser ditador e ser sanguinário não aproxima ideologia nenhuma.


Estátua no Parque de Treptow em Berlim. Inaugurada em 1949.

Foto: Estátua no Parque de Treptow em Berlim. Inaugurada em 1949.

No caso específico do comunismo e do nazismo as diferenças são tantas e tão profundas que fica difícil acreditar que alguém se deixe levar por uma bobagem tão evidente. Vejamos algumas diferenças fundamentais:

  • O comunismo é uma posição política que luta pela dignidade humana para todos os seres-humanos. O horizonte comunista é a cooperação entre os povos. Já o nazismo divide os seres-humanos com base em uma falsa ideia de “raças”. O horizonte nazista era a dominação mundial pelos arianos. Por isso é difícil entender como alguém pode falar em partido nazista no Brasil, visto que somos um país de gente miscigenada. Já o comunismo é possível em qualquer lugar do mundo e no mundo inteiro.

  • Outra diferença importante é na questão econômica. O comunismo é obviamente anticapitalista, ou seja, no comunismo ninguém tem o direito de se apropriar do trabalho alheio para fins privados. O resultado do trabalho de cada pessoa deve servir ao bem de todos.

  • O nazismo, pelo contrário, é profundamente capitalista. Foram os burgueses alemães que financiaram a criação do partido nazista. Não por acaso, durante todo o período nazista, as empresas alemãs como Siemens, Bayer, Volkswagen, Krupp, lucraram como nunca usando dinheiro público e mão de obra escrava. Portanto o nome oficial do partido nazista alemão: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães foi apenas uma jogada para atrair as massas de trabalhadores descontentes.

  • A origem do comunismo, enquanto teoria política e social, é também muito diferente da do nazismo. O comunismo é muito antigo e foi tomando forma com o avanço da ciência. Ele é, em sua forma atual, fruto do iluminismo. Quando os intelectuais se prestavam a elaborar uma forma social sem opressão e miséria. Karl Marx e Friedrich Engels tiraram mais tarde o comunismo do campo das ideias e entregaram um método científico de análise social e política. Já no século XX, Lênin, também um intelectual, trouxe para o comunismo um método de organização partidária e ação política.

  • O nazismo por sua vez é negacionista por excelência. Fruto de uma mistura bem eclética de teorias jamais comprovadas - como a teoria das raças e a conspiração judaica para dominar o mundo – o nazismo tem como seu fundador teórico o próprio Hitler que foi - bem ao estilo “corta e cola” - juntando elementos de doutrinas maiores como a do cristianismo, patriotismo, militarismo prussiano, liberalismo econômico para montar o programa de seu partido.


Dito isso fica claro que é totalmente correto simbolizar o nazismo com a figura de Hitler, mas totalmente errado reduzir o comunismo a figura de Stálin, pois ele não teve nenhum peso no desenvolvimento da teoria comunista. Obviamente ele tem seu lugar na história da União Soviética e da Rússia, mas não é uma figura central. Ao cometer seus crimes, Stálin se desviou, contrariou, os fundamentos da teoria comunista. Isso se comprova pelo fato de não ter sido a CIA ou outro inimigo que revelou ao mundo os crimes de Stálin, mas o próprio partido comunista russo, no governo imediatamente posterior a ele. Hitler, por outro lado, cometeu crimes contra a humanidade pondo em prática a teoria nazista.


Resumindo comunismo e nazismo não têm nada, mas nada mesmo, em comum. Tanto é assim que essas forças se enfrentaram na Segunda Guerra Mundial, não como concorrentes, mas como forças políticas antagônicas. Para o bem de todos foram os comunistas que venceram os nazistas.


Os povos da União Soviética resistiram duramente por quatro anos ao ataque surpresa dos invasores e foram capazes de avançar até Berlim, libertando milhões de pessoas no caminho. O ponto mais conhecido foi a libertação do campo de concentração de Ausschwitz.


Um feito histórico e glorioso que custou a vida de 20 Milhões de pessoas na União Soviética. Uma vitória da humanidade que ficou eternizada na foto da bandeira comunista sendo hasteada no prédio do Reichstag em Berlim.


Mas se as diferenças são assim tão claras, a quem interessa a justaposição comunismo/nazismo como equivalentes?

  • Primeiro aos fascistas do mundo inteiro que podem tranquilamente renunciar ao nazismo alemão, pedindo a proibição dos símbolos nazistas, dos gestos, das fotos do Führer, sem prejudicar com isso seu próprio movimento político. Isso porque o nazismo é um tipo de fascismo, é o fascismo alemão, mas há o fascismo italiano, brasileiro, português, espanhol, grego, etc. Cada um com seus próprios símbolos, uniformes e líderes. Por isso é fácil para um fascista propor a proibição do nazismo e do comunismo como fez o senador Eduardo Bolsonaro. Ele não perde nada e prejudica o pior inimigo de todos os tipos de fascismo, o comunismo.

  • Também aos grandes capitalistas do mundo que querem manter seus ganhos e lucros abusivos sobre a miséria da maioria da população mundial.

  • Às igrejas que em primeiro lugar tremem de medo de perder suas riquezas e influência política no caso de governos comunistas e em segundo lugar medo de perder sua existência simbólica frente ao desenvolvimento intelectual de seus fiéis. Friedrich Engels formulou que Deus seria uma resposta necessária dos seres humanos à fenômenos e inseguranças que eles desconhecem e não têm o controle. Por isso com o avanço da ciência quanto mais respostas fossem dadas aos homens e a quanto menos inseguranças eles fossem expostos, menor seria a necessidade simbólica Deus.

  • E claro aos sociais-democratas, sociais-liberais e verdes que buscam tirar de cena um inimigo político capaz de apontar a contradição insuperável que é tentar garantir dignidade a todos sem atrapalhar os interesses dos capitalistas. É aqui que nasce a “teoria dos extremos” onde os atores políticos de centro, capazes de conciliar com a burguesia, seriam supostamente os mais equilibrados.

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